Partidos políticos e democratização da sociedade
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Ao analisar o
desenvolvimento dos partidos, viu-se como eles foram um
instrumento importante, senão o principal, através do qual
grupos sociais sempre mais vastos imergiram no sistema
político e como, sobretudo, por meio dos partidos, tais
grupos puderam exprimir, de modo mais ou menos completo,
as próprias reivindicações e as próprias necessidades e
participar, de modo mais ou menos eficaz, da formação das
decisões políticas.
Anna Oppo
(Dicionário de Política
- UNB)
Os
partidos surgiram com o processo de democratização do
Estado. Foi, portanto, com a criação de processos mais
amplos de participação dos vários setores da sociedade na
administração do Estado que se criou as condições para o
cidadão se organizar, em torno de ideias e afinidades
políticas, para disputar a administração do Estado e o
domínio político.
Nos
estados monárquicos e aristocráticos não existiam
verdadeiros partidos, apenas agrupamentos sem definição
ideológica ou programática, os primeiros partidos como
conhecemos hoje, surgiram no século XIX, dessa forma,
assinalamos o surgimento dos primeiros partidos políticos
na Europa e nos EUA. Inicialmente com os grupamentos
burgueses que se organizavam para participar das eleições
e do processo parlamentar, posteriormente,com a ampliação
do direito ao voto, surgiram os partidos operários.
No
início do século XX o movimento partidário havia alcançado
um nível de organização e estruturação bastante complexo,
principalmente pela atuação dos Partidos Socialistas.
Agora os partidos já não se organizavam apenas às vésperas
das eleições mas tinham presença ao longo do ano. Formando
uma rede abrangente, que se inicia na base local e termina
no topo da direção, os partidos criaram aquilo que muitos
chamam de “máquina partidária”.
Os
partidos surgiram na medida em que as sociedades se
democratizavam e possibilitavam a “participação popular”.
Na prática, a história, a política e a mobilização social
de cada Estado define e molda os partidos políticos em
cada país. Mas, para conceituar o termo, usamos a
definição de Max Weber, que diz que o Partido é "uma
associação que visa a um fim deliberado, seja ele
'objetivo' como a realização de um plano com intuitos
materiais ou ideais, seja 'pessoal', isto é, destinado a
obter benefícios, poder e, consequentemente, glória para
os chefes e sequazes, ou então voltado para todos esses
objetivos conjuntamente". Portanto, partido apresenta como
característica central dois pontos; ser uma atividade
coletiva e possuir um objetivo estratégico comum.
Os
estudos sociológicos apresentam dois tipos básicos de
partidos políticos: o chamado Partido de notáveis,
característico da burguesia do século XIX, onde se tem um
"comitê" na organização e a representação parlamentar, uma
vez conquistada, era livre e pertencia ao eleito. O
segundo tipo é o do Partido de Massa, nascido no final do
século XIX, com a criação dos partidos socialistas e
trabalhistas, que apresentam uma estrutura piramidal onde
as bases elegem as instâncias superiores até o topo do
comando. Nesta estrutura, o mandato pertence ao partido e
a linha política de atuação deve ser unitária.
Após a
segunda guerra mundial, com o processo eleitoral e
democrático consolidado na maioria dos países e a
necessidade de buscar votos em uma massa de eleitores, em
sua grande maioria despolitizados, surge aquilo que
chamamos de partido “misto”. Nestes partidos coexistem
características de ambos os modelos; tanto a estrutura
vertical permanece quanto a posição de personalidades
“notáveis” se faz presente. A crítica que se faz a este
modelo (e a democracia de massa) é pela sua tendência a
homogeneidade, onde os partidos, em busca de votos,
convergem para uma posição central onde questões
conflituosas são relegadas a segundo plano.
Uma
vez que o partido participa das eleições e precisa ser
eficiente no jogo da conquista política dos eleitores
(disso depender a sua sobrevivência), pode surgir a
tendência, mesmo em partidos de massa, da concentração do
poder decisório em uma oligarquia partidária que comanda a
máquina eleitoral. A resposta democrática a este estado de
coisas é a própria participação dos filiados e
simpatizantes nas estruturas verticais. O debate político
interno e as novas demandas apresentadas tem o efeito de
arejar a estrutura partidária, dinamizando sua atuação e
combatendo o imobilismo. De qualquer modo, os partidos
políticos podem ser considerados os principais agentes
políticos coletivos da atualidade.
Os
partidos políticos no Brasil
O
esquema apresentado anteriormente pode explicar, em linhas
gerais, os partidos políticos modernos, mas, é claro, a
realidade local traz reflexos próprios na organização
política, fazendo com que em cada país a organização
partidária apresente suas particularidades. No caso
brasileiro a história partidária é mais recente de que a
europeia ou norte americana e bastante irregular. Os
atuais partidos políticos (existem, registrados no
Tribunal Superior Eleitoral, 27 partidos políticos e
outros tanto em formação),
Portanto, surgiram no período da redemocratização e têm
cerca de 30 anos. Mas muito se apresentam como herdeiros
de uma história anterior. O PCdoB se diz continuador do
antigo Partido Comunista (fundado em 1922), o PTB seria
produto do velho PTB fundado por Getúlio Vargas em 1945 e
o PMBD remonta sua origem a 1965, quando a ditadura fechou
todos os partidos anteriores e organizou a Arena
(governista) e o MDB (que aglutinava todos os políticos da
oposição consentida).
Se a
história partidária do país é recente, o papel
desenvolvido por eles no processo de redemocratização foi
muito importante, repetindo papel semelhante aos dos
países desenvolvidos da Europa. Inicialmente aglutinados
no MDB e depois nos partidos surgidos com a abertura
democrática, a sociedade civil utilizou os partidos como
escoadores de suas demandas políticas e, assim,
construíram nossa democracia. A constituinte foi um
momento de forte presença partidária.
Atualmente, entre nós, se fala na necessidade de uma
reforma política que fortaleça o papel dos partidos
políticos e recupere a sua centralidade. Mas, isso é um
debate voltado ao futuro, que ainda veremos seu resultado.
Jose Augusto de Oliveira Camargo
08/03/2010